dois. depois que fundiu, fodeu.

O Perfume da Boliviana

Posted: 26.1.08 | Postado por Dois² | 1 comentários

Cheguei em casa mais tarde do que o usual, e me deparei com uma figura até então desconhecida para mim. Pele amendoada, olhar profundo e os cabelos pelos ombros.
O elevador não estava no térreo. Ficamos nós dois em silêncio, a mulher e eu. Resolvi arriscar um oi, e recebi de volta um oi com sotaque. Tentei reconhecer de onde era a moça, mas o melhor jeito era perguntar.
- Bolíbia - disse ela com o sotaque característico.
Até então eu não havia conhecido ninguém da Bolívia. Enfim o elevador chegou, e como todo macho metido a besta, quis mostrar logo meu lado galanteador, e abri a porta para que ela entrasse; ela agradeceu e entrou. O rastro do perfume da boliviana era inebriante.
Trocamos olhares tímidos, e antes que o elevador parasse no andar da moça, aproveitei para tentar conversar ao menos um pouco com ela.
- Você é nova aqui?
- Moro aqui há dos meses.
- Nossa, eu nunca tinha te visto. Qual seu nome?
- Susana, e o teu?
- Valdomiro.
O elevador deu um tranco, e eu percebi de que não era o meu andar. Quis trancá-la no elevador, acionar o sistema de emergência e agarrar a boliviana; só não o fiz pois meu bom senso deu um grito ensurdecedor.
Ao sair do elevador ela olhou para mim e disse tchau bem baixinho, como se ela estivesse sem graça.
Depois desse dia passei a fazer serão todos os dias no escritório. Assim eu chegaria mais tarde em casa, e encontraria a boliviana à espera do elevador no saguão do prédio. Ledo engano.
Consegui com o porteiro o número do apartamento dela, e no mesmo dia bati à porta de Susana. Ela me recebeu com surpresa e espanto, mas deve ter gostado da visita, já que hoje - oito anos depois de nos conhecermos - estamos casados, brigamos todos os dias, nossos filhos nos odeiam e eu não aguento mais essa boliviana hija de una puta!


Aristides e as caçapas

Posted: 20.1.08 | Postado por Dois² | 0 comentários

Aristides era um sujeito pacato, cumpridor de seus deveres, mas tinha um vício: a sinuca.
Todos os dias, depois do trabalho em um escritório apertado e abafado, ia ao boteco jogar. Bebia pouco, somente quando estava muito calor, ou nas sextas. Gostava de jogar apostando.
No começo, ainda quando era garoto, jogava de brincadeira, pra passar o tempo. O tio de Aristides era fera na sinuca, conhecia todos os macetes e estratégias do jogo, e foi com o Tio Barcelos que Aristides se encantou pelas caçapas.
Já adolescente, incentivado pelo Tio Barcelos, participou de um torneio. Ficou em segundo lugar, mas foi como se tivesse sido o campeão.
Em casa, Aristides guardava um conjunto de tacos feito com uma madeira especial, que deslizava fácil pela mão. Comprou em uma viagem à Argentina, por uma bagatela. Os tacos eram o xodó de Aristides, e ele só os usava em mesas especiais, extremamente planas e felpudas, como as do clube dos sinuqueiros. Por sinal, foi lá no clube que Aristides conheceu aquela que seria sua esposa, e que quebraria o conjunto de tacos na cabeça de Aristides, quando este havia chegado às três da madrugada, bêbado e com uma puta mais bêbada ainda a tiracolo. Ele havia dito que era uma amiga, mas a desculpa não colou.
Quando Aristides soube que a esposa havia quebrado os tacos em sua cabeça, pediu o divórcio. Ele não conseguiria viver ao lado de uma mulher sabendo que ela havia destruído aquilo que ele mais gostava.
Após o divórcio ele mudou-se para uma casa maior. Comprou uma mesa de sinuca, e todos os finais de semana reunia os amigos para umas partidinhas de sinuca.
Aristides nunca mais se casou. Dedicou todos os seus últimos anos à sinuca.

A efemeridade de Álvaro e Elisa

Posted: | Postado por Dois² | 1 comentários

Elisa não queria que Álvaro se casasse. Ela não sabia bem ao certo o motivo, apenas não queria. Eles não tinham nenhum affair ou coisa do gênero, apenas eram amigos há anos. Talvez Elisa sentisse ciúmes de Álvaro. Ela implorou para que Álvaro não comprasse a aliança de noivado, mas Álvaro não deu ouvidos à amiga; comprou o mais brilhante anel da joalheria. Nada extravagante, apenas brilhoso.
Quando Elisa recebeu a notícia de que Álvaro iria sim se casar, caiu em prantos, e por fim se deu conta de que a paixão havia tomado conta dela.
Quis fugir para algum país longe e frio, como a Noruega...assim ficaria longe de Álvaro. Pensou até em suicídio, mas achou a idéia radical demais.
Um belo dia Elisa recebeu uma mensagem de Álvaro no celular, que dizia assim: “Terminei”. Seu estômago dava voltas, e ela explodiu em sorrisos e sensações boas. Preparou um jantar especial para Álvaro.
Naquele mesmo dia Álvaro também se deu conta de sua paixão por Elisa, e eles começaram ali mesmo um namoro que durou exatos dois meses e vinte e dois dias. Terminaram por sabe-se lá qual motivo.
Coisas da vida...

Posted: 17.1.08 | Postado por Dois² | 1 comentários

Morte
Te desejo
Boa sorte.

Fúria grátis, aqui!

Posted: 15.1.08 | Postado por Dois² | 2 comentários

Com a janela fechada não via mais futuro, nem aqui e nem lá.
Talvez fosse o cansaço do trabalho, ou a partida inesperada; não importa.
Qual a diferença entre o lá e o aqui, perguntava-se. Nenhuma...são lugares distintos, mas ainda assim lugares.
Ah, pro inferno com isso tudo!

Mero acaso rotineiro

Posted: 7.1.08 | Postado por Dois² | 2 comentários

Noites absurdamentes gélidas e tórridas simultaneamente, corrompidas por taças de vinho barato.
Da janela se vê os transeuntes madrugadores na calçada, e nos prédios vizinhos, parcas luzes acesas.
Bom mesmo era o tempo em que as noites eram noites gratificantes, em que não se tinha hora pra dormir nem pra acordar. Não havia ordem para os fatos, eles apenas ocorriam como se fossem mero acaso.
Rotina.

O Relógio

Posted: 3.1.08 | Postado por Dois² | 6 comentários

Há tempos eu não usava relógio; o celular sempre quebrou esse galho pra mim. O problema é quando o aparelhinho fica sem bateria, o que acontece muito facilmente.
Então, depois de dez anos sem usar um relógio de pulso, decidi comprar um. Fui até a Meca dos relógios falsificados, a região da rua 25 de março, em Sampa.
Entrei em alguns estabelecimentos que provavelmente funcionam sem alvará da prefeitura. Entrei em um mercado de pulgas sino-brasileiro, e me senti um estranho. Se não fosse pelos meus companheiros de olhos não-puxados, eu poderia dizer que estava no oriente.
É incrível a variedade de produtos. Roupas, calçados, eletrônicos, cosméticos, e relógios. Aos montes.
Parei em frente a um estande e fiquei observando os modelos. O atendente – chinês – me olhou meio desconfiado, já que eu não pronunciei nenhuma palavra. Pra quebrar o gelo, perguntei:
- Moço, quanto tá esse?
Ele balbuciou algumas palavras, e eu fingi que entendi. O sotaque era terrivelmente carregado, e eu resolvi não insistir na conversa, sabendo que se eu resolvesse perguntar as características do produto, fatalmente eu riria do jeito de falar do nosso amigo Ling Ling.
Gosto dos chineses, mas é realmente difícil de entender o que eles dizem.
Procurei então uma lojinha em que algum brasileiro trabalhasse, e encontrei - para meu alívio. Parecia que eu havia voltado de uma longa viagem da China, e até jetlag eu pareci sentir.
É engraçado...as lojas vendem os mesmos modelos de relógios, provavelmente provenientes do mesmo contrabandista.
Me encantei por um relógio analógico. Pulseira de metal, mostrador sóbrio, bem bonita a muamba. Fiz a pergunta mais imbecil possível:
- É à prova d'água, moça?
- Só até dez metros, senhor.
Como assim só até dez metros?
Resolvi levar assim mesmo. Se eu fosse entrar em alguma piscina ela com certeza não seria tão funda, e na praia eu só fico no rasinho.
Antes mesmo de sair da loja eu coloquei o relógio no pulso. Acertei a hora e fui pra casa feliz com meu novo gadget. Sim...hoje em dia tudo é gadget.
Cheguei em casa suando em bicas. Verão brasileiro...sabe como é, né?
Fui até o banheiro, liguei o chuveiro, tirei a roupa e entrei debaixo da ducha gelada.
Algumas horas após o banho, olhei para o relógio, com a clara finalidade de saber as horas. Parado. Dei algumas batidinhas no pulso, mas o maldito não funcionava.
Eu moro no décimo quarto andar, a muito mais de dez metros do chão. Talvez por isso o relógio tenha parado de funcionar.

Posted: 2.1.08 | Postado por Dois² | 1 comentários

- Eu te vi, disse ele.
- E por que não falou?
- Porque eu estava acompanhado.
- E daí?
- E daí que você é a outra, eu não falaria com você estando com a minha namorada.
- Ah, entendi.



Essa modernindade...

Baseado em fatos reais.