Grito
Da alma
Pro infinito.
Ganhar para perder
Eu não queria ter ficado bêbada na festa do Alê. O clima tava tão bom pra conversar, mas eu enfiei o pé na jaca e bebi horrores. Claro que isso tem nome: Manoela. É foda! 3 anos e 5 meses de namoro e a Manu me diz que quer terminar, assim sem mais nem menos só porque não gosta mais de mim. E eu? Eu ainda gosto, oras. Ela não podia ter continuado o relacionamento por bondade? A gente já passou por tanta coisa juntas... Eu não acho justo da parte dela ter feito isso comigo. Pois bem, voltemos à festa do Alê. Era sábado, uma semana depois do acontecido e eu estava colocando o pijama quando o Alê me ligou ordenando a minha presença na festa. Eu falei que estava mal pelo fim e ele não me perdoou por isso, disse que me queria lá. Porra, o Alê sabe que eu não faço drama, tava completamente na merda, mas fui. Consideração, né?! Não queria ser a coitada da festa, queria que meus amigos me vissem bem, afinal, ninguém precisava saber da fossa. Me arrumei, pus brincos, colar, saia e decote e fui pra lá. Havia dois anos que eu não fumava, mas passei no posto e comprei um Marlboro Light e fui. Cheguei por lá e poucos tinham chegado. Falei com o Alê, como de constume, peguei um copo de vodka e fui beber. A minha intenção não era passar da quarta dose, mas... nem preciso dizer que eu não cumpri. Lá pelas duas eu já dinha passado de Marraquesh e já estava até pra lá de Bagdá, quando a Manoela chegou na festa com um carinha. Até aí, tudo bem. A Manu nunca ficaria com um cara, o negócio da gente sempre foi mulher, tanto que aos 25 eu nunca tinha dado pra nenhum homem, ela já. Ela falou comigo como se fôssemos amigas, como se 3 anos e 5 meses fosse coisa de amizade. Eu respeitei, claro, cada um reage de uma forma, mas não acreditei quando os vi na cozinha aos beijos. What'afucking is this? Calma, Juliana, calma! Você está bêbada demais para fazer alguma coisa, além do mais ela não é a sua namorada; não mais. Me segurei na parede e voltei até a sala. Falei pro Alê pegar mais uma dose pra mim porque tinha muita gente na cozinha e eu estava com calor pra ir até lá (que desculpa foi essa?). Quando ele voltou, sem a minha dose e com um refrigerante, eu percebi que lá vinha merda de consolo para bêbado com dor de corno. Bastou um olhar e a pergunta básica: 'você tá bem?' para que desatasse a chorar sem fim. Imediataente o Alê me levou até o quarto dele e pôs-se a me consolar. Eu chorei por mais de uma hora copiosamente e o Alê do meu lado, sentado na cama, me confortando naquele abraço infinito. Ele me levou até o banheiro para tomar um banho e me colocar pra dormir. Me despiu, me deu banho e me deu um camisetão pra vestir. Que papelão, hein, Dona Juliana?! Assim que ele me deitou na cama eu fui abracá-lo para agradecer por tudo. Nos beijamos. Sabe quele beijo de novela que a cara da mocinha fica bem besta? Foi exatamente isso. Depois de uns 3 minutos, quando olhei nos olhos do Alê, ele sorriu e me beijou novamente. O resto nem preciso dizer, né?! A nossa festa continuou na cama dele. Pela manhã, quando acordei, havia um bilhete ao meu lado dizendo: 'desculpas pelo que te fiz, mas só eu sei o quanto eu esperei por isso, Alê'. Fiquei chocada. Como assim? Levantei, pus minha roupa e fui até a cozinha tomar uma água. O Alê estava lá me preparando um café da manhã. O silêncio sepulcral tomou conta daquela manhã de ressaca moral de domingo. Saí de lá confusa e completamente estranha. O Alê não me ligou por uma semana e eu achei que deveria ligar. Marcamos no parque Trianon e conversamos durante horas a fio até que ele se declarou pra mim. Mais uma vez eu fiquei de cara e falei isso pra ele, eu não esperava. O Alê entendeu e disse que me deixaria livre pra pensar, mas tudo que ele havia dito era verdade. Nos despedimos e eu acabei voltando pra Manu dois dias depois. Nuca mais vi o Alê, ele se mudou, parece que tá em BH. Eu só acho que perdi o homem da minha vida, vai saber...
Das despedidas e das coisas que jogamos fora
Tem coisas na minha vida que sumiram, minha mãe as deve ter jogado fora. outras eu mesma expurguei de mim. O motivo? Não me serviam mais ou não me satisfaziam mais. O fato é que, às coisas importantes eu dedico uma caixa, uma gaveta e um espaço na minha memória. Aquelas coisas que só eu entendo e que só eu choro ao desenterrá-las. Eu odeio perder coisas boas ou ter que jogá-las fora por motivos quaisquer. Nunca neguei que isso doesse. E cada um sabe a dor que leva dentro do peito.
Eu odeio despedidas e não conheço ninguém que goste delas. Eu sinto como se um pedaço de mim fosse embora, escorresse pelas minhas mãos como água. A sensação de perda e impotência é foda. Já passei por tantas dessas, já chorei até dormir, mas nunca me conformei ou aprendi com isso. E quem é que se conforma? Por mais que o amor seja grande e que as coisas voltem um dia, nunca voltarão na verdade. Eu sei. O que eu não gosto é de sentir saudade.
O tédio de Garcez
Garcez estava em um daqueles dias chatos, em que nada acontece. Se houvesse, ele estaria em um dia de TPM masculina.
Sentou-se ao computador, checou a caixa de emails duas vezes - para ter certeza - jogou um pouco de pôquer e desistiu. Ficou entediado.
Pegou o telefone e ligou para alguém. Não obteve resposta, e achou normal, já que seu astral não era dos melhores.
Ele teve vontade de dormir o dia todo, mas sabia que não poderia fazer isto. Já estava vagabundeando há muito tempo, e queria mudar, só não sabia como.
Voltou para o computador, e começou a escrever uma história sobre algum desconhecido que estivesse em situação semelhante à dele.
Martins e a falta de título
Martins era uma pessoa normal. Morava em uma casa normal, tinha filhos normais, sua esposa era normal e até seu cachorro era normal. Tudo era muito normal na vida de Martins.
Ele não se entediava com isso, pelo contrário; achava que quando as coisas saíam do padrão, imprevistos aconteciam.
O tempo passou e os filhos de Martins cresceram. O menino se chamava Carlo, e a menina, Rebeca.
Carlo e Rebeca tornaram-se adolescentes transgressores, repudiando assim o conformismo dos pais.
Rebeca engraçou-se por um traficantezinho meia boca do bairro. Engataram um namoro sério que durou até a morte do sujeito. Rebeca - inconformada - tratou logo de começar a namorar de novo. Ficou solteira durante vinte e três dias. Era fascinada pelo crime, e firmou compromisso com outro traficante; mais velho do que o anterior, e mais poderoso. Traficava animais e armas.
Carlo não era extravagante, mas era viciado em cola, maconha, álcool e balinha. Começou cheirando o esmalte da mãe e da irmã.
Fumava pelo menos cinco baseados por dia, e não conseguia se concentrar muito bem em suas tarefas diárias, como a escola, por exemplo.
Foi expulso de todas as escolas que frequentou, desde que começou a fumar droga.
Carlo conseguia droga muito mais barato com os contatos de Rebeca. Pagava dez reais por uma quantidade de maconha que era vendida por trinta. O fumo não era lá essas coisas, era o que sobrava; mas era barato.
Martins achou bem normal a atitude de seus filhos. Dizia que poderia ser ainda pior...Rebeca poderia ter virado puta, e Carlo blogueiro-meia-boca.